Os Onipresentes Pleonasmos Viciosos

Como sou persistente, insistente, teimosa, perseverante, obstinada continuo a minha cruzada inglória contra os pleonasmos viciosos,  apêndices inúteis e grotescos, metidos e antipáticos que só enfeiam e engordam nossa linguagem.

Rápida espiada na gramática: Pleonasmo vicioso=Repetição de termos supérfluos, inúteis e desnecessários na frase.

Explico, esperneio, escrevo, corrijo, mas tenho que dar a mão à palmatória: o uso de certos pleonasmos viciosos na linguagem coloquial, é cada vez mais comum e aceito. Alguns deles aparecem mesmo nas ocasiões em que a norma culta impera – ou deveria. Não há bate-papo, discurso, pronunciamentos, entrevista, aula ou palestra em que um ou outro pleonasmo vicioso não meta o bedelho.

Alguns pleonasmos são característicos de determinados grupos com fácil e frequente acesso às mídias e, por isto, amplamente divulgados e populares. Ora, se âncora de jornal de TV, astro de novela, diretor de empresa, comentarista esportivo, político e até ministro falam “inauguração de novas lojas”, “elo de ligação entre o governo e a sociedade”, “empresa com grandes projetos para o futuro”, “encarar de frente os desafios”, “manter o mesmo time”, “criar novos empregos”, “viagem feita há dois anos atrás”, “ela está sempre com um sorriso nos lábios” por que não podemos falar assim também? Poder pode; ainda vivemos numa democracia. Mas ser popular não é sinônimo de estar certo.

Para que elo “de ligação” se elo significa ligação, união?

Inaugurar quer dizer expor pela primeira vez à vista ou ao uso do público, estabelecer pela primeira vez. Donde se conclui que o adjetivo “nova/o” é penetra em qualquer inauguração. Não se inaugura nada antigo ou velho. Assim também não se cria nada que não seja novo. Criar é gerar, originar, dar origem ou existência a, fundar.

Quem é capaz de fazer planos e projetos para o passado?  Já tentou encarar alguma coisa ou alguém de lado ou de costas? É possível manter um outro time ? Por que usar há + atrás se as duas palavras indicam a mesma coisa, tempo passado. Pra terminar, vamos apenas sorrir, sem lábios. Ou você conhece alguém que sorri com a testa ou com as orelhas?

Fique esperto e não se deixe enganar. O pessoal de moda e decoração vai pedir que você atente para os mínimos, pequenos e até grandes detalhes de uma roupa, de um móvel ou de um ambiente. Detalhe não é sinônimo de coisa pequena.  Direto para o dicionário. Detalhe = minúcia, pormenor, particularidade. Portanto, detalhe não tem tamanho.

A tribo da culinária, tão na moda, insiste em ensinar a cortar o bolo em duas metades e a dividir o tomate em metades iguais. Você já conseguiu dividir qualquer coisa ao meio e obter mais que duas metades? E já viu duas metades de tamanhos diferentes? O dicionário nos diz que metade é cada uma das duas partes iguais em que se divide um todo. Portanto, corte o bolo ao meio e divida o tomate pela metade ou em metades.

A turma dos programas de auditório, sites e canais de compras promete lhe dar inteiramente grátis alguma coisa e anuncia que os primeiros a telefonar vão ganhar grátis qualquer besteira. Dar é presentear, doar. Portanto, a palavra dar já implica “de graça”. Do mesmo modo, ninguém ganha pagando; use receber grátis.

Não fale sem pensar só porque os outros falam. Ainda tenho um restinho de esperança que, com um pouco de atenção, você consegue se livrar desses  penetras metidos, vulgo pleonasmos viciosos, que entram de fininho na nossa linguagem, se instalam como convidados de honra e tomam conta da festa.



Pleonasmos – Seu Papo sem Gorduras Indesejáveis

É difícil eliminar redundâncias e pleonasmos viciosos da sua linguagem porque alguns se tornaram tão comuns e são tão usados que parecem corretos. Mas só parecem.  Como “todo mundo fala assim” você vai atrás e perpetua o erro. Para ajudar a perceber (e corrigir) as bobagens que falamos mecanicamente, veja abaixo alguns pleonasmos usados a toda hora e que não fazem o menor sentido.

Prever de antemão - Prever significa ver antecipadamente. De antemão quer dizer antecipadamente. Precisa mais?

Há + AtrásFui viajar dois meses atrás. muito tempo atrás eu usava esta roupa. O que há de errado nestas frases? e atrás na mesma frase é uma redundância ou um pleonasmo visto que já indica passado, sendo, portanto, supérfluo e redundante o uso de atrás. Use ou ou atrás: fui viajar dois meses atrás ou fui viajar há dois meses.

Já + MaisA escola não é mais tão boa como antes. Mesmo caso do uso de e atrás. O e o mais têm a mesma função na frase. Portanto é uma redundância. Elimine um dos termos e acerte.

Todos e Unânimes – Houve uma unanimidade entre todos os alunos/Todos foram unânimes em elogiar o chefe. Certo? Errado! Todo significa completo, inteiro, total. Unânime quer dizer relativo a todos, geral. Faça sua escolha entre todos e unanimidade/unânimes e diga Houve unanimidade entre os alunos/Os alunos foram unânimes… e Todos elogiaram o chefe/Foram unânimes em elogiar o chefe.

Comparecer pessoalmente - Comparecer é apresentar-se em local determinado. É impossível apresentar-se em algum lugar sem ser pessoalmente, certo? Diga comparecer ou ir pessoalmente.

Repetir de novo – Repetir é tornar a dizer/escrever/fazer/usar, etc. Elimine de novo.

Inaugurar novo/Criar novo/Novo lançamento - Não se inaugura, não se cria e não se lança nada velho, antigo ou que já existe. Então, para que esse novo? Fora com ele.

 Grande maioria - Você fala pequena maioria? Claro que não. Maioria é a maior parte de. Logo, grande é gordura indesejável.

Conclusão final - Por que final se a palavra conclusão, sozinha, já quer dizer término, epílogo, fecho?

Certeza absoluta - Mais do mesmo: não existem meia certeza ou um pouco de certeza. Certeza é conhecimento exato, preciso, é convicção. Você tem certeza e ponto final.

Outros exemplos de pleonasmos viciosos comuns: Multidão de pessoas – Plebiscito popular – Estrelas do céu – Sonhar um sonho – Outra alternativa – Acabamento final -  Conviver juntos – Amanhecer do dia – Países do mundo – Pessoa humana – Surpresa inesperada – Vereador da cidade – Pisar com os pés – Limite extremo – Abertura inaugural – Hemorragia de sangue – Cego dos olhos – Introduzir dentro – Gritar alto – Monopólio exclusivo – Sussurrar baixo

 Para liquidar o assunto, saiba que nem todo pleonasmo é mau português. Há casos em que seu uso como figura de linguagem é legítimo e necessário para dar mais ênfase ou clareza à expressão.

Vinícius de Moraes (E rir meu riso e derramar meu pranto), Manuel Bandeira (Chovia uma triste chuva de resignação), Fernando Pessoa (Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?), Antonio Calado (Foi o que vi com meus próprios olhos) e vários outros grandes autores usam o pleonasmo literário propositalmente para dar à frase mais cor e intensidade ou para realçar uma ideia.

Mas você não precisa ser poeta ou escritor para usar o pleonasmo literário na linguagem do dia a dia. Use-o à vontade quando quiser enfatizar uma ideia. Nada contra falar sujo daquela sujeira encardida, lavar bem lavado, correr com aquelas pernas imensas, chorar um choro sentido, sorrir um sorriso triste, etc.

Percebeu a diferença entre pleonasmo vicioso e pleonasmo literário?